Fundada oficialmente em 2 de março de 1820, Uberaba não é apenas uma das cidades-polo do Triângulo Mineiro; é um território cuja história revela um Brasil profundo, onde o campo, a fé e a cultura popular moldaram um modo de vida autêntico e resiliente. O que poderia ser apenas mais um município do interior mineiro, tornou-se símbolo nacional da pecuária seletiva, da religiosidade popular e da produção cultural identitária. A cidade é, portanto, mais do que cenário: é protagonista da construção do imaginário brasileiro rural e urbano.
O desenvolvimento
econômico de Uberaba está historicamente associado à introdução e expansão do gado Zebu, tornando-se a “Capital Mundial do
Zebu” ainda no início do século XX. A fundação da Associação Brasileira dos
Criadores de Zebu (ABCZ), em 1934, foi um marco que transformou a cidade em
referência internacional para a genética bovina tropical. Atualmente, a ExpoZebu, realizada anualmente em maio,
movimenta mais de R$ 300 milhões, atrai mais de 300 mil visitantes e reúne
expositores de mais de 20 países, segundo dados da própria ABCZ (2023).
No entanto, reduzir
Uberaba à lógica econômica da agropecuária seria ignorar a riqueza do seu
patrimônio imaterial. A religiosidade mineira, de raízes barrocas e populares,
encontra expressão contundente na arquitetura sacra das igrejas centrais, como
a Igreja de Santa Rita e a Catedral Metropolitana. Mas ela também pulsa nas
feiras populares, como a FeirArte
(aos sábados) e a Feira da Abadia
(aos domingos), ambas reconhecidas como patrimônio imaterial de Uberaba por sua
relevância cultural e histórica. Nesses espaços, convergem gastronomia típica,
artesanato, música regional e sociabilidade comunitária, elementos que
sustentam a identidade local.
Eventos como o Festival de Inverno de Peirópolis,
voltado à música instrumental, cinema e ecoturismo, e o Festival Gastronômico Sabores de Minas,
que celebra a culinária do Cerrado e a produção agroecológica regional,
reforçam a pluralidade cultural uberabense. Tais programações — que combinam
tradição e inovação — demonstram a potência de Uberaba como polo de cultura
descentralizada, desafiando a hegemonia cultural dos grandes centros urbanos.
Entretanto, esse
legado exige mais do que comemoração. Exige proteção institucional e políticas
públicas eficazes de valorização do patrimônio material e imaterial. A cultura
de Uberaba, apesar de rica, ainda carece de maior sistematização em inventários
culturais, incentivo à profissionalização de artistas locais e fomento contínuo
à economia criativa. Os dados estão postos; o desafio é transformar capital
simbólico em desenvolvimento cultural sustentável.
Uberaba é,
portanto, um território de narrativas. Narrativas construídas entre fazendas
centenárias, centros espíritas, praças barrocas e feiras populares. Valorizar
essa herança é reconhecer que o Brasil profundo não é atraso — é potência
cultural. E Uberaba está pronta para contar essa história ao mundo.

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