Uberaba, cidade do Triângulo Mineiro com mais de 300 mil habitantes, é um território onde a tradição, a fé, a ciência e a natureza coexistem de forma orgânica. Em tempos de turismo superficial e massificado, propor um roteiro de dois dias em Uberaba é propor, acima de tudo, uma experiência com densidade histórica e cultural — algo que vai além da simples visita. O presente guia assume a responsabilidade de mostrar como a cidade pode ser vivida intensamente em 48 horas, respeitando sua essência e destacando sua condição de Geoparque Mundial da UNESCO.
Dia 1 – Centro Histórico e Cultura
Religiosa: memória viva de uma cidade plural
A caminhada matinal
pela Praça Manoel Terra é mais do
que um passeio. Ela permite observar a dinâmica urbana, o comércio tradicional
e o convívio intergeracional, reflexos vivos da sociabilidade mineira. O Mercado Municipal, inaugurado no início do
século XX, resiste como um dos últimos espaços autênticos da cultura alimentar
local: ali, cachaças artesanais, doces típicos e produtos da agricultura
familiar revelam a Uberaba invisível aos olhos apressados.
A visita à Igreja Santa Rita, de 1854, e ao seu
anexo Museu de Arte Sacra, não é
apenas um exercício estético: trata-se de compreender o barroco mineiro como
patrimônio espiritual e político. A Igreja
de São Domingos, com sua imponência neogótica erguida com materiais
importados da Europa, reforça essa dimensão. À tarde, a Catedral Metropolitana e o Museu do Zebu, no Parque Fernando Costa,
oferecem uma leitura cruzada entre fé e agropecuária. Não por acaso, Uberaba é
a capital mundial do gado Zebu e essa herança moldou tanto sua economia quanto
seu imaginário.
Dia 2 – Natureza, Ciência e
Espiritualidade: os outros pilares de Uberaba
O segundo dia exige
deslocamento a Peirópolis,
distrito símbolo do patrimônio paleontológico nacional. No Museu dos Dinossauros, os visitantes
encontram fósseis com mais de 65 milhões de anos, incluindo réplicas de
espécies como o Uberabatitan. A
complexidade científica da região é reforçada pelo Centro de Pesquisas da UFTM, que reúne mais de 1.500
fósseis — um acervo que dialoga com as universidades e a educação pública.
À tarde, o contato
com o meio ambiente se renova no Parque
Ecológico Mata do Ipê, espaço de conservação da fauna e flora do
Cerrado, bioma historicamente negligenciado nas políticas de preservação. Em
seguida, o Campo Experimental Getúlio
Vargas (EPAMIG) oferece um contraponto: tecnologia aplicada ao
agronegócio, reforçando a vocação inovadora da cidade. A jornada se encerra no Memorial Chico Xavier, que não é apenas
um centro de memória espírita, mas um espaço de reflexão sobre a cultura da
paz, o altruísmo e a religiosidade popular.
Conclusão: um destino de profundidade,
não de superfície
Os dados não
mentem: o reconhecimento como Geoparque da UNESCO pode impulsionar o turismo
local em até 30%, segundo o Ministério do Turismo. No entanto, o número, por si
só, não basta. É preciso oferecer experiências transformadoras — e Uberaba o
faz como poucas cidades brasileiras. O que se propõe neste guia não é turismo
de consumo, mas turismo de significado: uma viagem onde cada parada é uma aula
de história, uma prática de cidadania e um convite à contemplação.

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